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Autor do conto: Tácio Queiroz

Esse texto eu escrevi em um momento em que estava começando a conhecer as faces das minhas sombras. Na primeira versão, eu ainda não tinha plena consciência do que ele significava para mim; foi uma forma de me expressar em meio ao caos que eu estava vivendo, sem saber como não me perder em todo aquele desespero. Espero que gostem!

A ESCADA


Na manhã de ontem, quando eu consegui pegar no sono, depois de acordar às 3:00 da manhã e ter conseguido apenas tirar um cochilo antes do horário de levantar, eu tive um sonho.

Eu estava num prédio que parecia um pouco com onde eu moro. Quando eu estava saindo da recepção para o hall de entrada, um homem abriu a porta e deixou entrar três rottweilers que pareciam proteger o espaço. Todos vieram correndo na minha direção. Eu sabia que eles estavam famintos, porque todos cães de guarda sempre estão famintos.

Um ficou latindo muito e rosnando. O outro ficou apenas rosnando e fazendo cara feia. Havia um que estava mais próximo de mim e, embora enorme, era extremamente dócil. Estava lambendo meu rosto, querendo carinho e mordendo minha mão de brincadeira, de uma maneira que não doía.

Mas eu fiquei ali imóvel, parado, extremamente tenso e sem saber o que fazer. Eles estavam sedentos. Eu sabia que iria morrer ali mesmo. Só estavam esperando eu ceder o que eles queriam: a minha fúria e o meu desespero para sobreviver por conta do medo. Então eles me teriam.

A única reação que o meu corpo teve foi sair de fininho, sem fazer movimentos bruscos. Se eu tentasse enfrentá-los ou correr, eu seria dilacerado completamente, e eu desejava intensamente todas as opções possíveis, até mesmo uma morte rápida ali mesmo, para acabar com aquela sensação ruim. Eu não podia negar, rejeitá-los ou fingir que eles não estavam ali, parados na minha frente, sedentos por sangue, ao mesmo tempo, ternura… Mas, assim que eu fui saindo de fininho, eles ficaram no mesmo lugar, apenas me olhando.

Eu subi as escadas pensando apenas em proteger as minhas cadelinhas, embora o temperamento fosse idêntico ao dos rottweilers, contudo, em polaridades diferentes, elas apenas tinham a aparência de serem cinco vezes menores, cinco vezes mais frágeis e cinco vezes mais vulneráveis. Peguei-as nos braços com muito amor e carinho, entrei para casa e tranquei a porta. Sentei no sofá com elas ainda nos meus braços, enquanto aqueles demônios ou, talvez anjos, protegiam o prédio.

Senti um alívio muito grande. Não queria passar por aquela situação novamente. Porém, eu tinha escapado e, mesmo assim, na minha mente vieram imagens de eu morrendo de várias formas diferentes, repetidamente. Quando não morria, perdia um braço ou umaperna. Isso se repetiu tantas vezes que parecia que o que aconteceu não foi diferente, como se eu não tivesse me livrado. Era o próprio inferno. Aquele trauma se materializava na minha frente, de novo, de novo e de novo.

Se eu tivesse que passar por aquilo novamente, ainda haveria medo e todos os mesmos sentimentos que senti naquele momento e também de todas as vezes que se repetiam os finais alternativos na minha mente. Em alguns, eu virava alimento deles. Em outros, eu trucidava-os como um berserker, acabando até mesmo com sua parte dócil e inocente. Quem consumiria quem? Se eu morresse, minhas cadelas também deixariam de existir. Se eu lutasse, elas não me veriam mais com os mesmos olhos.

Ainda que eu estivesse mais preparado, talvez com um canivete bem afiado em meu bolso, podendo sair triunfante de uma batalha entre “homem” e animais ferozes, sem dificuldade, eu já sabia o caminho.

Com muita calma e com um único pensamento e sentimento em meu coração, eu sairia de fininho, subiria as escadas da minha consciência e protegeria quem eu amo, deixando os rottweilers fazerem o seu trabalho em paz.

Por fim, isso somente veio a ser esclarecido na minha consciência após despertar de muitos outros sonhos ruins e depois de se passar um tempo considerável de mais dias ordinários e mágicos, como todos desde que nasci, então pude assimilar de forma dolorosa e ao mesmo tempo amorosa esse entendimento e o alívio de ser humano.

Oliver Ti.

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