Autor do artigo: Tácio Queiroz
Inanna, a rainha do céu, deusa do amor e da guerra, detinha os símbolos de seu poder: coroa, manto, joias. Mesmo assim, ela empreende uma descida ao submundo, um lugar onde ninguém vai por vontade própria. Em cada um dos sete portões, ela é despojada de um de seus adornos, chegando ao fim totalmente nua. Ereshkigal, sua irmã e rainha do mundo dos mortos, a mata. Inanna permanece pendurada em um gancho por três dias.
Esse “gancho” não é apenas uma imagem de um mito antigo. Ele ressoa com momentos da nossa própria vida, aqueles períodos em que somos despidos de tudo que nos dava identidade, em que a sensação de vazio e a incerteza sobre o retorno são palpáveis. É um estado de desamparo onde o “eu” se dissolve.
Inanna, contudo, ressuscita. Mas a saída do submundo tem um preço: alguém deve tomar seu lugar. Ela retorna à superfície, escoltada por demônios. Passa por aqueles que a lamentaram, que sentiram sua falta, e por eles, sente compaixão. Ela não os escolhe para o sacrifício.
Então, ela chega em casa. E encontra Dumuzi, seu marido, sentado no trono, bem vestido, bem alimentado. Em algumas versões, festejando. Enquanto Inanna estava morta, ele estava alheio, confortável.
Dumuzi não a enviou ao submundo. Mas sua indiferença, sua ausência de luto, sua vida inalterada enquanto Inanna vivenciava o extremo da dissolução, revelam uma desconexão profunda. Inanna, que teve misericórdia de quem sofreu com sua ausência, não a estendeu a quem não demonstrou sofrimento algum. Ela o escolhe.
A canção “Pior Que o Mal”, de Baco Exu do Blues, com a frase “Tudo bem, às vezes precisamos ser pior que o mal”, oferece uma lente contemporânea para essa escolha ancestral. A letra, que também afirma “Preciso ficar bem”, sugere que esse “pior que o mal” não é um ato de maldade gratuita, mas uma ação necessária para a própria sobrevivência e reequilíbrio. Não se trata de vingança, mas de uma resposta a uma realidade onde a indiferença ou a omissão também geram consequências.
No Interlúdio: Hasos, um diálogo entre paciente e psicólogo, a questão se aprofunda. Quando o psicólogo pergunta como ele reagiria a certas situações hoje, o paciente responde: “Não, faria pior”, explicando que “às vezes, a gente precisa ser pior que o mal”. Essa fala pode ser interpretada como uma forma de elaboração, onde Baco, através do personagem, aceita sua Sombra. Ele parece parar de lutar contra um lado mais agressivo e decide integrá-lo. Para sobreviver em um mundo que muitas vezes se mostra hostil, a passividade pode ser fatal. Aceitar a capacidade de se posicionar de forma mais assertiva, ou até mesmo “dura”, para se defender, retira o peso de uma culpa que, por vezes, é imposta. O objetivo final não é a maldade, mas a busca pelo bem-estar. A paz é o fim. Embora o álbum e o interlúdio de Baco Exu do Blues mereçam um texto à parte para explorar todas as suas camadas, essa analogia serve para iluminar a complexidade da escolha de Inanna.
A escolha de Inanna por Dumuzi, nesse contexto, pode ser interpretada como um reconhecimento de que a responsabilidade não se limita à ação direta. A passividade e a falta de empatia diante do sofrimento alheio também podem ter um custo. O mito, assim, nos convida a refletir sobre as dinâmicas de poder e responsabilidade em nossas próprias relações.
O mito de Inanna, com seus mais de quatro mil anos, continua a nos provocar. Ele não oferece respostas prontas, mas nos apresenta um cenário complexo de perda, renascimento e escolhas difíceis. Ele nos espelha a jornada de despojamento e a necessidade de redefinir o que somos quando o mundo nos tira tudo. E, ao final, nos deixa com a questão: o que fazemos quando voltamos do nosso próprio submundo, e quem, ou o que, precisa assumir a vaga em seu lugar no submundo?
Oliver Ti.
