Autor do artigo: Tácio Queiroz
Viver em sociedade sempre foi, pra mim, um exercício estranho. Desde cedo eu percebia que as pessoas pensavam de formas muito diferentes, brigavam por motivos que eu achava pequenos e defendiam com unhas e dentes certezas que, no fundo, eu não conseguia simplesmente aceitar. Com o tempo, isso apareceu em tudo: nas diferenças sociais entre ricos e pobres, nas disputas de gosto, nas bolhas de amizade, nas discussões entre crença e ciência, nas religiões que se contradizem e, mesmo assim, parecem funcionar para quem acredita nelas. No meio desse caos de opiniões, crenças e realidades, eu comecei a me perguntar não só por que as pessoas são tão diferentes e por que eu tantas vezes me sinto incompreendido, mas também se existe um jeito mais honesto e humano de lidar com essa confusão. É a partir dessas inquietações que, neste texto, quero apresentar duas ideias, o pensamento complexo e a teoria da emergência, junto com o conceito de bolhas sociais, para pensar melhor como essas diferenças surgem, como elas afetam as relações e como podemos aprender a conviver com o caos de tantas formas de ver o mundo sem tentar reduzir tudo a uma resposta simples.
Cresci em São Caetano, um bairro periférico de Salvador, onde a violência me deixava mais dentro de casa do que na rua. Meu mundo era a minha imaginação, o PlayStation 2 e uma internet bem lenta, em que eu passava horas buscando jogos e qualquer tipo de conhecimento que chamasse minha atenção. Ao mesmo tempo, eu vivia em uma família evangélica, ia à igreja com minha mãe, mas desde pequeno já sentia que não encaixava totalmente ali. Acreditava em um Deus criador, mas não exatamente no Deus que me apresentavam, e isso aumentava a sensação de ser diferente dentro da minha própria casa.
Quando me mudei, aos 10 anos, para uma cidade do interior do Rio de Janeiro, esse estranhamento ganhou outra camada. Em Salvador, mesmo sendo branco, eu vivia cercado por muito mais pessoas negras e, de certo modo, não tinha uma visão tão clara da divisão social, porque, para mim, todas as pessoas tinham o mesmo valor. Já no Rio, eu comecei a perceber uma separação maior entre ricos e pobres. Muito cedo, vi crianças da minha idade se gabando de coisas materiais como se fossem adultos, falando de roupa de marca, de carro da família, de status, enquanto outros mal tinham o básico. Também passei a notar com mais força o racismo contra amigos negros e o preconceito com nordestinos, muitas vezes voltado diretamente para mim, como se meu jeito de falar ou de vir “de fora” fosse um motivo para piada ou para me colocar em um lugar menor.Além disso, eu via meus colegas brigando por coisas que, pra mim, pareciam bobas, como a guerra entre rock e funk, quem era popular e quem não era. Ao mesmo tempo, eu aprendia a transitar entre vários grupos, desde quem só falava de coisas superficiais até quem gostava de conversas mais profundas. Isso me fazia perguntar por que eu conseguia entender melhor essas diferenças do que muita gente à minha volta.
Mais tarde, quando tive meu primeiro contato com espiritualidade fora do cristianismo, como a umbanda, essa pergunta cresceu ainda mais. Eu via que religiões e práticas diferentes pareciam funcionar para as pessoas, cada uma do seu jeito, e isso me deixava preso na dúvida sobre qual caminho era o certo e qual era o errado. Ao mesmo tempo, eu via pessoas do candomblé dizendo que o que se fazia na umbanda era errado, o que só aumentava a sensação de conflito entre sistemas que, de alguma forma, pareciam tocar algo verdadeiro para quem os vivia. Essa confusão ficou ainda maior quando comecei a conversar com pessoas mais céticas e, por conta da minha formação na faculdade de Direito, passei a buscar também uma forma mais acadêmica e científica de entender a espiritualidade. Mesmo assim, eu não conseguia simplesmente jogar fora minhas experiências subjetivas e o lado mais humano da sociedade.
Foi dessa mistura de dúvidas internas, diferenças sociais e conflitos espirituais que surgiu a minha aproximação com a Magia do Caos. Ela não me deu uma resposta pronta, mas me ofereceu uma forma de olhar para o mundo que aceitava, ao mesmo tempo, a importância da ciência e o peso das experiências subjetivas.
Antes de chegar no pensamento complexo, acho importante falar rapidamente de dois jeitos de ver o mundo que surgiram em bolhas diferentes de pensamento. O paradigma cartesiano, que vem de pensadores como Descartes e se fortaleceu nas ciências exatas e na biologia, parte da ideia de que, para entender algo complexo, a gente precisa separar, dividir e analisar cada parte isoladamente. É um método poderoso, mas, quando aplicado à sociedade, pode criar visões muito reducionistas, como se a vida em comunidade fosse só uma soma de peças soltas.
Por outro lado, o paradigma holístico surgiu como uma resposta a essa fragmentação, propondo que não dá para entender nada separando demais. É preciso olhar para o “todo”, para as conexões e a harmonia do sistema. O problema é que, no extremo, o holismo pode acabar ignorando os conflitos, as desigualdades e as contradições que existem dentro desse “todo”.

Neste texto, porém, meu foco não é discutir esses métodos dentro das ciências, mas sim aplicar uma terceira via, o pensamento complexo, ao campo das relações humanas e ao convívio social. O pensamento complexo não joga fora o cartesiano nem o holístico; ele tenta integrar o que eles têm de melhor. Ele reconhece a importância de analisar as partes, mas sem esquecer que essas partes estão ligadas entre si e a um contexto maior. Ao mesmo tempo, ele concorda que tudo se conecta, mas sem fingir que não existem tensões, desigualdades e contradições nessas conexões. Em outras palavras, o pensamento complexo nos convida a segurar mais de uma verdade ao mesmo tempo, mesmo quando elas parecem se contradizer.
Um exemplo prático que ajuda a entender como isso funciona no social é a forma como enxergamos a criminalidade. Na visão cartesiana, o problema é reduzido a partes isoladas: má educação, favela, criminosos aliciando menores. A solução quesurge é fragmentada: se o problema está nos adolescentes, basta diminuir a maioridade penal. Já a visão holística diria que a criminalidade é fruto de uma sociedade desequilibrada e que a solução está em políticas integradas de amor e harmonia social, o que, sozinho, pode ignorar a urgência de medidas concretas. O pensamento complexo, por sua vez, propõe analisar as partes sem perder o contexto maior, aceitando que podemos defender, ao mesmo tempo, políticas de longo prazo e medidas de curto prazo, mesmo que pareçam contraditórias. Isso exige sair da lógica do “ou isso ou aquilo” e entrar na lógica do “e isso e aquilo, dentro de um contexto”.
Se o pensamento complexo me dá a lente para ver as partes e o todo, a teoria da emergência me ajuda a entender como essas partes se juntam e criam algo totalmente novo, algo que não existia em nenhum ingrediente sozinho. Essa ideia nasce da teoria dos sistemas, proposta por Ludwig von Bertalanffy, que defende que tudo no universo pode ser entendido como um sistema: um conjunto com uma fronteira, dentro do qual elementos se inter-relacionam seguindo regras. Sistemas mais complexos são compostos por sistemas menores, e a interação entre essas partes gera propriedades novas.
O exemplo mais claro é a nossa consciência. O cérebro tem cerca de 86 bilhões de neurônios. Um neurônio sozinho não pensa, não sente. Mas a interação em rede de todos eles, em um nível altíssimo de complexidade, faz emergir algo de uma outra dimensão: a consciência, os sentimentos, a subjetividade. Como defende o filósofo Edgar Morin, o todo se torna maior e diferente da mera soma das partes.
Agora, pense nas pessoas e nos grupos sociais com a mesma lógica. Cada pessoa é um sistema complexo. Os ingredientes da sua história, o bairro onde cresceu, a família, a educação, os traumas, as crenças, uma neurodivergência, são como os neurônios: elementos que, sozinhos, não explicam quem você é. Mas, quando eles interagem dentro de você, emerge sua personalidade única, sua visão de mundo.
E quando várias pessoas com ingredientes parecidos convivem, elas formam uma bolha social, que é um sistema complexo maior. Dentro dessa bolha, as interações contínuas geram algo novo que não estava em ninguém isoladamente: um dialeto, um gosto musical coletivo, valores compartilhados, preconceitos comuns, até uma sensação de “nós” versus “eles”.
Um exemplo concreto disso é o ator Wagner Moura. Em entrevistas nos Estados Unidos, ele comenta que é considerado interessante para Hollywood justamente por vir da Bahia e do Brasil. Sua origem não é apenas um detalhe biográfico; é um ingrediente único que, quando inserido no sistema de Hollywood, emerge como um diferencial. Ele traz uma textura, uma perspectiva, uma bagagem cultural que os atores locais não têm. Isso não está “dentro” da Bahia em si, nem “dentro” de Hollywood sozinha, emerge da interação entre esses dois sistemas.Na minha própria vida, isso fica claro. Quando me mudei da Bahia para o Rio, foi como um ingrediente transplantado para outra panela. Na bolha baiana em que cresci, mesmo sendo branco, eu convivia muito mais com pessoas negras e não tinha uma visão tão nítida do racismo e da ostentação material. No Rio, emergiam comportamentos diferentes: crianças se gabando de bens materiais, o racismo mais explícito, o preconceito contra nordestinos, e até as guerras entre rock e funk, que para mim pareciam bobas, mas que dentro daquela bolha faziam todo o sentido. Cada bolha cozinha seus ingredientes e produz um “sabor” de realidade próprio.
Se cada pessoa é uma sopa única, onde os ingredientes da sua história interagem e fazem emergir quem você é, então o autoconhecimento passa a ser o exercício de identificar esses ingredientes e observar como eles cozinham juntos dentro de você. Isso não significa eliminar as contradições, mas aprender a segurar essas partes sem precisar negar nenhuma. É assim que eu lido com minhas próprias sombras: em vez de brigar com o que não entendo em mim, procuro ver de qual contexto aquilo emergiu.
Quando eu encontro alguém que pensa de forma radicalmente diferente de mim, essa visão me puxa para outra postura: em vez de julgar ou tentar “consertar” a visão da pessoa, eu tento imaginar qual é a receita da sopa dela. Que família, que traumas, que culturas, que crenças cozinharam juntos para emergir aquela perspectiva? Isso não anula os conflitos. Pelo contrário, os conflitos de ideias são necessários e podem ser muito produtivos. A diferença é que, em vez de uma guerra para ver quem está certo, essa forma de pensar abre espaço para um diálogo sobre de onde vêm as certezas de cada um.
Na Magia, essa ideia aparece de forma muito prática. Um feitiço não é uma fórmula mágica fixa; é um sistema onde cada elemento funciona como um ingrediente da sopa. Quando você coloca esses elementos para interagir num ritual, algo novo emerge: um efeito, uma mudança interna, uma sincronicidade. Esse resultado não está em nenhum dos elementos isolados, mas nasce da relação entre eles, exatamente como a teoria da emergência descreve. Você não controla o resultado de forma linear, mas cria condições para que algo surja da interação das partes.
Nas relações humanas, acontece algo parecido. A gente não controla como os outros vão reagir ou pensar, mas pode escolher quais “ingredientes” leva para a interação: curiosidade em vez de julgamento, escuta em vez de imposição, aceitação das contradições em vez da busca por pureza. Isso não é uma promessa de vida sem conflito. É só um convite para que você, leitor, use seu próprio senso crítico, pegue o que fizer sentido para a sua sopa e descarte o que não fizer.
A vida não é só linda e maravilhosa. Os conflitos existem, as diferenças machucam e, muitas vezes, a incompreensão dói. Mas entender que, por trás de cada opinião, de cada briga, de cada estranhamento, existe uma sopa inteira de experiências que a gente não conhece, pode ajudar a lidar melhor com as pessoas mais próximas.Afinal, amigos pensam diferente, familiares pensam diferente, e a gente precisa conviver com alguns deles e manter algum tipo de relação com outras pessoas. Eu acredito que os conflitos de ideias são necessários, principalmente num momento em que, com as redes sociais, as bolhas são alimentadas pelos mesmos conteúdos o tempo todo por causa dos algoritmos. A magia, nesse caso, não é fazer o mundo virar um lugar sem conflito, mas conseguir navegar esse caos com um pouco mais de clareza, aceitando que as panelas são diferentes, e que é justamente isso que torna cada encontro tão imprevisível e, ao mesmo tempo, tão potente.
Por fim, entender pensamento complexo, teoria dos sistemas, emergência, bolhas sociais, autoconhecimento e Magia do Caos não é um fim em si. É um jeito de viver com um pouco mais de consciência no meio do caos. Um filme que traduz muito disso é “A Chegada”, do Denis Villeneuve. Nele, naves alienígenas chegam à Terra e os humanos tentam se comunicar com seres cuja linguagem é totalmente diferente da nossa. O filme mostra como a forma de linguagem muda a forma de perceber o tempo, a realidade e os conflitos, revelando que boa parte das guerras nasce, na verdade, de problemas de tradução, não só de palavras, mas de mundos internos. Na vida real, cada pessoa e cada bolha social falam a partir de uma “língua” própria, que emerge da sua história e dos seus ingredientes. O que estou propondo com esse texto não é um mundo sem conflito, nem uma verdade final. É um convite para que você use seu senso crítico, pegue o que fizer sentido e, como em “A Chegada”, antes de decidir quem está certo ou errado, tente entender que língua o outro está falando, e qual é a língua que você mesmo usa para contar a sua história.
Oliver Ti.
Fontes:
Livro: Introdução Ao Pensamento Complexo – Edgar Morin
